segunda-feira, 17 de julho de 2017

AS VIRTUDES DO ANALISTA E SUA RELAÇÃO FENOMENOLÓGICA COM O MUNDO

A relação fenomenológica que se reserva ao homem não deve ser descaracterizada ou progredida de forma desalinhada com sua própria natureza pelo advento do conhecimento estipulado como científico, mais estabelecida numa relação equilibrada entre concordância e posicionamento necessário para que se corresponda em seu desenvolvimento na compreensão do mundo.

“Na investigação dos processos mentais e das funções do intelecto, a psicanálise segue o seu próprio método específico. A aplicação desse método não está de modo algum confinada ao campo dos distúrbios psicológicos, mas estende-se também à solução de problemas da arte, da filosofia e da religião. Nessa direção já produziu diversos novos pontos de vista e deu valiosos esclarecimentos a temas como a história da literatura, a mitologia, a história das civilizações e a filosofia da religião.”(FREUD, 2006 Vol. XVII).

As virtudes que o analista detém surge de sua relação fenomenológica com aquilo que ele pode perceber de si, ou em si pela incisão da externalidade, que em dado momento está para além das habilidades constatadas na própria formulação técnica, ao passo que possa promover para o outro, parte de sua própria experiência, antes mesmo de possuir qualquer contextualização sobre ela.
Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979) contribui neste processo com uma posição interessante e expansiva dos recursos fenomenológicos aliados à filosofia, que expressa modelos trabalhados à partir das experiências no que resulta a verdadeira aprendizagem em análise, o que conceitua posteriormente sua própria psicanálise como práxis de determinada filosofia.

“O exemplo bem conhecido é quando ele diz a um paciente: “isso que o senhor está sentindo é o que chamo de inveja”. E poderia acrescentar “é o que eu chamo de inveja kleiniana”. Noutras palavras, a experiência que está sendo vivida pode ser nomeada psicanaliticamente com a ajuda de um conceito que lhe é dado pela teoria kleiniana à respeito da inveja.” (REZENDE, 1994 pg. 28).

Neste contexto, à partir da presença empírica, a organização de cunho teórico vem para acolher e respaldar este conteúdo até então desconhecido pela dupla analítica, trazendo luz acerca dos fenômenos anteriormente imprevistos.
Assim as virtudes enquanto analista resultam das experiências bem sucedidas com suas relações no campo fenomenológico das apreciações e intuições, ao passo que aprimora em sua técnica para nomear, conduzir, ressignificar e reconhecer o que se possa admitir enquanto verdade.
A relação de observação fenomenológica com o mundo externo se qualifica pela indagação ao autoconhecimento e ao saber que se tem das próprias condutas enquanto proposta prática, assim o verdadeiro analista se estabelece com integridade e a curado pela realidade.


“Nessas alturas, serve-se de expressões tais como “o analista real” ou o “analista que é”. E o analista que é, é aquele que se encontra com a Realidade Última na própria mente do paciente. Não se trata de observar a Realidade Última, nem de entendê-la, mas de... ser.” (REZENDE, 1994 pg. 29-30).

Este entendimento se estabelece como virtude pelo reconhecimento de sua própria ignorância, onde passo-a-passo, através da nutrição fornecida por ambientes saudáveis e devidamente conformes podemo-nos expandir em nossas capacidades, entre a busca pelo equilíbrio de nossas instâncias ao caminho que seja possível responsabilizar-se pelas singularidades, concebendo assim consciência e tolerância sobre aquilo que é encontrado.
Neste percurso ainda enquanto fenômeno, Renato Dias Martino como fomentador da psicanálise, também praticante pela perspectiva bioniana e do acolhimento, nos orienta sobre que podemos descobrir em atividade psicoterapêutica;

“Nesse aspecto a psicanálise converge em um modelo que transcende a teoria e se pronuncia numa dimensão onde não existirá técnica que possa suprir a incapacidade no acolhimento.”. (MARTINO, 2015 pg. 68).


Assim a fenomenologia está para a ciência ao mesmo passo que a psicanálise, onde pela formação de cada praticante analista, vem sendo aprimorada e transformada em conteúdo para dar respaldo àquela demanda que ocorre precedendo pelos seus sintomas.






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FREUD, S. 1917-1918Uma Neurose Infantil e Outros Trabalhos, Vol. XVII.  Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.
REZENDE, M. A. Bion Formador de Analistas. Revista Percurso. São Paulo. Edição pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. nº12,ano VII - 1/1994.
MARTINO, R.D. O Livro do Desapego. São José do Rio Preto. Editora Vitrine Literária, 2015.






Pedro Volpato
Psicoterapeuta
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segunda-feira, 26 de junho de 2017

CEREBRO E ALMA

Acreditamos saber muito sobre os mistérios do corpo humano, desenvolvemos cuidados físicos, nos preocupamos em passar cremes para rugas, tomamos vitaminas, fazemos ginásticas e procuramos uma alimentação saudável. Somos treinados para sermos lógicos e objetivos e não para conhecer o complicado mundo do psíquico humano. Assim, pouco nos preocupamos com os cuidados psicológicos, não desenvolvemos habilidades para lidar com o território emocional.  
Partindo do princípio de que o mais próximo que temos de nós somos nós mesmos, podemos verificar que o que pensamos do outro parte do que pensamos de nós. Fazemos nossos juízos a partir do nosso próprio egocentrismo e esquecemos que cada ser humano é uma caixa de segredo a ser explorada. 
Esses tipos de percepções podem nos levar a reflexões do porque o autocontrole do corpo e da mente não passa de ilusão, sonhada pela inocência de nossa vaidade. Nos desconhecemos em demasia, e atormentados com o que desconhecemos, saímos a procura de um endereço que está dentro de nós mesmos. 
Percebemos que, no fundo, somos abraçados pelo mundo de fora. Nosso cérebro (físico) precisa de medicamentos, cremes e vitaminas, mas nossa alma precisa de acolhimento, de quem se preocupe em afagar o eu, protegendo-nos do mundo de fora, para que possamos ter a capacidade de decidir em qual endereço queremos morar. Como bem disse Carl Jung, “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.



Carlos C.P. Paulino
Psicoterapeuta e Escritor
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quarta-feira, 21 de junho de 2017

O EQUÍVOCO DO SABER E O SOFRIMENTO IMPLICADO NAS TRANSFORMAÇÕES ACERCA DAS CONVICÇÕES

Neste texto, enquanto transformações me refiro às experiências que desenvolve-se como conhecimento, e posteriormente vem sendo tomadas pelas ciências nas contextualizações atuais que são progredidas generalizadamente no curso expansivo da humanidade enquanto sociedade e modernidade.
A posição da ignorância neste sentido vem geralmente acompanhada pela sensação de inferioridade e incerteza quanto ao futuro, nos apresentando certa cota de insegurança frente aos processos da vida.
Por este e outros motivos, manter-se ignorante ao saber enquanto constituinte dependente de uma organização social, nos traz consequências relativas não muito aceitas pela cultura vigente.
Podemos reconhecer que a realidade é composta de vários saberes relativos à parcela daquilo que conseguimos expressar pela análise dos fenômenos perceptíveis à partir da nossa própria posição como sujeito.
O saber neste sentido se faz equivocado na medida que desconhecemos os limites próprios de nossa ignorância inerente, ao passo que nos confundimos pelas representações que construímos acerca da realidade se compactuarmos com a visão ideológica kantiana.
Desta forma, Immanuel Kant (1724-1804) pertinente filósofo alemão nos possibilita que;

“Em contrapartida, o conceito transcendental dos fenômenos no espaço é uma advertência crítica de que nada, em suma, do que é intuído no espaço é uma coisa em si, de que o espaço não é uma forma das coisas, forma que lhes seria própria, de certa maneira, em si, mas que nenhum objeto em si mesmo nos é conhecido e que os chamados objetos exteriores são apenas simples representações da nossa sensibilidade, cuja forma é o espaço, mas cujo verdadeiro correlato, isto é, a coisa em si, não é nem pode ser conhecida por seu intermédio; de resto, jamais se pergunta por ela na experiência.” (KANT, 2001 pg. 96).

A realidade que é apresentada pelas formas destes espaços, se isenta da noção na perspectiva pessoal de ignorância, nos acomete ao engano implicando em convicções acerca dos limites aos quais são possíveis conhecer ou constatar.
A perspectiva e possibilidade de novidades com as recorrentes transformações nos trazem desambiguações frente às perspectivas do saber até então estabelecido, este movimento é bem conhecido pela ciência desde muito cedo, e já provocou grandes desapontamentos durante as descobertas que floresceram.
Neste sentido, Sigmund Freud (1856-1939) criador das propostas psicanalíticas iniciais, também nos adverte em suas obras sobre este contexto experimentado pelas transformações humanas;

“A origem dessa resistência, segundo penso, situa-se em algo mais profundo. No transcorrer dos séculos, o ingênuo amor-próprio dos homens teve de submeter-se a dois grandes golpes desferidos pela ciência. O primeiro foi quando souberam que a nossa Terra não era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema cósmico de uma vastidão que mal se pode imaginar. Isto estabelece conexão, em nossas mentes, com o nome de Copérnico, embora algo semelhante já tivesse sido afirmado pela ciência de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando a investigação biológica destruiu o lugar supostamente privilegiado do homem na criação, e provou sua descendência do reino animal e sua inextirpável natureza animal. Esta nova avaliação foi realizada em nossos dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora não sem a mais violenta oposição contemporânea. Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica da época atual, que procura provar o ego que ele não é senhor nem mesmo em sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente.” (FREUD, 2006 Vol. XVI).

Saber sem reconhecimento da ignorância gera convicções, convicções sem sensibilidade dos fenômenos reais apresentados pela experiência do estável, daquilo que é perceptível e único ao enquadramento transicional nos acarreta fantasia, e na dissolução sofrimento ao embate das perspectivas advindas.
Apesar da ligação de sinônimos que encontramos entre as palavras convicção e fé, há reconhecimento de uma parcela que qualifica a fé como parte extra sensorial da realidade, onde se diferencia da perspectiva simples de uma mera convicção abstrata e baseada em lógicas de cunho racional.
Também desta forma aquele que exerce a fé, faz uso deste caminho assim como aquele que busca a verdade, mesmo fora de qualquer religiosidade construída, onde segue guiado pelo que pode experimentar de si próprio e do mundo, na mesma medida que é possível reconhecer e adquirir os limites de si em tese.

“Fazemos conjecturas, formulamos hipóteses, as quais retiramos quando não se confirmam, necessitamos de muita paciência e vivacidade em qualquer eventualidade, renunciamos às convicções precoces, de modo a não sermos levados a negligenciar fatores inesperados, e, no final, todo o nosso dispêndio de esforços é recompensado, os achados dispersos se encaixam mutuamente, obtemos uma compreensão interna (insight) de toda uma parte dos eventos mentais, temos completado o nosso trabalho e, então, estamos livres para o próximo trabalho.” (FREUD, 2006 Vol. XXII).




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KANT, I. Crítica da Razão Pura 5ª Edição. Lisboa. G.C. – Gráfica de Coimbra Lda. Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
FREUD, S. 1916-1917 Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise Pt. III, Vol. XVI.  Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.

FREUD, S. 1932-1936 Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise e Outros Trabalhos, Vol. XXII. Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.








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quarta-feira, 24 de maio de 2017

VONTADES & DESEJOS: UMA CONTEXTUALIZAÇÃO POSSÍVEL ENTRE AS REPRESENTAÇÕES CONCEITUAIS DE PRISÃO E LIBERDADE

Quantas vezes já nos percebemos aprisionados pelos nossos desejos?
Quantas vezes nos aproximamos, ou potencializamos o ideal de liberdade perante a realização de nossas necessidades?

Schopenhauer, professor e influente filósofo do século XIX, refletiu e explorou amplamente a questão da vontade humana em suas respectivas obras literárias e filosóficas, criando assim uma identidade própria e relevante para este pensamento em questão. 
Desta forma, Schopenhauer caracteriza que o humano é guiado absolutamente pela sua vontade, onde concentra-se nesta perspectiva, a busca por realiza-las, inicialmente por necessidades básicas e intrinsecamente internas, que vão sendo transformadas e alocadas à constituição psíquica, posteriormente reconhecidas como desejos, advindas pelas expectativas inerentes e unificadas antes mesmo do contato real com a coisa em si.

“Antes a palavra do enigma é dada ao sujeito do conhecimento que aparece como indivíduo. Tal palavra chama-se vontade. Esta, e tão somente esta, fornece-lhe a chave para seu próprio fenômeno, manifesta-lhe a significação, mostra-lhe a engrenagem interior de seu ser, de seu agir, de seus movimentos. ” (SCHOPENHAUER, 2005 pg. 156-157).

A vontade então, é o que rege a vida humana segundo a contribuição experimentada por Schopenhauer, algo que por natureza caracteriza e representa a pulsão de vida, muito íntimo e mistificado como o princípio das ordens das necessidades humanas.
                                  
Enquanto a necessidade não se deve prescindir, e se impõe de maneira direta ao nosso funcionamento, a posição do desejo e suas forças por realizações encontram-se devidamente pré-estabelecidas e revogáveis ao homem.  O encontro entre as representações de prisão e liberdade se torna possível pela distinção daquilo que se encontra necessário ao desenvolvimento integral do sujeito e sua realidade.
Aquilo que, em alusão às ilusões, está alocado como renúncia dessa mesma realidade, tido como satisfação de adoração fictícia ou enganosa, representada aqui pelo ideal de desejo, que se estabelece pelo caráter insatisfatório de nossas realizações acompanhado pela sensação de inconclusão.
Cada vez que agimos exclusivamente e incontestavelmente ao acordo de nossos desejos, ao fim de realiza-los pela posição de intolerância, nos percebemos ainda mais conviventes e fiéis deste ciclo, que por não ter nenhuma objeção inclusa e implicada ao processo, mostra-se como representante único deste círculo de infinidade contínuo, o que associa-se diretamente aos ideais de uma prisão em forma psicológica.

Assim, quando nos encontramos sustentados pela supressão de uma necessidade, experimentamos e sentimo-nos acolhidos por um sentimento mais comum do que conhecemos como liberdade.
A busca pelo discernimento destes fenômenos nos coloca em compreensão dos elementos que na realidade não são de forma alguma desconexos um do outro, assim como todos os outros presentes na realidade, mais que na impensável ação cotidiana vem sendo amplamente confundidos e atrasando o desenvolvimento que mantemos com nós mesmos em nossas relações com a realidade.
Desta forma a atribuição estabelecida aqui acerca dos desejos não exime pela consciência transcorrida todo e qualquer movimento de superação deste fenômeno, pois como as necessidades que são indispensáveis para a vida humana, os desejos, assim como os ideais, se coerentes com a realidade também o são, o desafio em si concentra-se na responsabilidade pessoal adquirida pelas experiências, que mostra-se mais uma vez revigorantes ao autoconhecimento humano, ao passo que podemos refletir e estabelecer novos caminhos pelas capacidades então adquiridas através destas perspectivas.



SCHOPENHAUER, A. 1788-1860 O Mundo Como Vontade e Representação. Primeiro Tomo, tradução, notas e índices por Jair Barboza. São Paulo – SP.  Editora Unesp, 2005.




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quinta-feira, 4 de maio de 2017

Convite para o lançamento do livro PSICANÁLISE DO ACOLHIMENTO vol. 1

O GEPA - Grupo de Estudo Psicanálise do Acolhimento faz um 
convite para o lançamento do livro PSICANÁLISE DO ACOLHIMENTO vol. 1
Apresentando 14 autores com importantes temas da psicanálise.
Local: OBA - Obra Assistencial da Basilica - 
R. Floriano Peixoto, 1200 - Boa Vista, São José do Rio Preto, SP
Informações pelo fone 17 30113866
Dia 20 de maio de 2017 às 16:00 hs.
Venha prestigiar e traga um litro de leite para obra de caridade!

terça-feira, 18 de abril de 2017

A IMPOSSIBILIDADE DE INTEGRAÇÃO PELO IDEAL DE REPRESENTAVIDADE

            
Nos dias de hoje, a questão de sermos representados, seja no campo político ou em qualquer área de inserção e atuação profissional vem sendo confundida e proposta como ferramenta à promoção de igualdade e esperança. A busca por tal realização tem levantado inúmeras questões e debates acerca desta possibilidade que, pelo ideal de sua transformação seriam diminuídas ou até diluídas em nossas complexas estruturas e adversidades, aliadas à nossa atual modernidade e a subjetividade de nossa existência secular como humanos.
            
   Abordando este aspecto de forma psicanalítica, temos no início da vida psíquica como constituição a identificação. Já nas fases primitivas do nosso desenvolvimento e de forma inerente, espera-se por esta ocorrência. Assim, no decorrer da vida torna-se um ato de coragem e responsabilidade pessoal exercer-se a busca e união por aquilo que identificamos como um novo processo aos cursos de nossa trajetória.
                
A identificação surge comumente ao seio familiar, especificamente ao movimento de nossos primeiros contatos e vínculos parentais, e então essa mesma identificação passa por variáveis transformações pelas influências de nossas experiências que, posteriormente concebem nossos ideais, imaginações, pensamentos e personalidade.

“A identificação constitui a forma original de laço emocional com um objeto; segundo, de maneira regressiva, ela se torna sucedâneo para uma vinculação de objeto libidinal, por assim dizer, por meio de introjeção do objeto no ego; e, terceiro, pode surgir com qualquer nova percepção de uma qualidade comum partilhada com alguma outra pessoa que não é objeto de instinto sexual. Quanto mais importante essa qualidade comum é, mais bem-sucedida pode tornar-se essa identificação parcial, podendo representar assim o início de um novo laço.” (FREUD, 2006 Vol. XVIII).

            Desta forma, relacionando o conceito de representatividade ao contexto oferecido pela identificação, mantemos nossas perspectivas de maneira única em direção ao mundo externo, contabilizando também suas estruturas e configurações, nos trazendo a forte convicção de que estamos plenamente conectados ao outro pelo acordo dos mesmos ideais unidos ao fator de integração dessa identificação em comum.
            
Então, pelos desdobramentos das variáveis e perspectivas advindas além das próprias identificações, como ocorre nas experiências, vamos aderindo adversamente convicções de natureza inconcebíveis ao outro, pela simples característica de nossa ótica relativa, que pré-determina e contrapõe nossa compreensão independentemente da identificação mútua que mantemos entre os objetos.
            
Assim, fica distante dentro de nossas próprias capacidades individuais estabelecer-se por completo apesar mesmo da forte identificação que nos une, as nossas ações não se realizam fora do nosso próprio campo de individualidade enquanto personalidade constituinte por natureza inconsciente, e neste sentido, podemos ao nosso máximo propor modelos de utilização, dos quais partem de nossas ligações e integrações que mantemos com a realidade, pois representar interinamente o outro, e por totalidade os ideais dos membros de todo um grupo ou qualquer outra externalidade diversa não se encontra acessível pelo nosso complexo contingente psíquico e pessoal a qual pertencemos, por mais completa e dedicada que possa ser nossa ação de busca por este ideal de transformação.
            
Em uma busca obsessiva por este representar, seja este ou aquele desejo, podemo-nos encontrar em um movimento similar de desintegração de individualidade momentânea, que pode ser prejudicial se experimentada intensamente e de maneira desrespeitosa ou ilimitada, corrompendo assim nosso próprio e único modelo de contribuição à realidade que podemos ter como finalidade.
            
Ainda assim podemos presumir que, nessa busca constante pelo ideal de representação, por mais conscientes do contexto ao qual estamos desempenhando, nossa intenção poderá atingir somente onde nosso senso de autopreservação natural ocorrer, nos alocando novamente ao pertencimento de nossa própria e única integridade, a nossa constituição fenomenológica pessoal.
           
Sobre esta dificuldade acerca das integrações e diferenças contextuais, deixo em destaque um trecho freudiano, do qual se refere às exigências de buscas por resultados estimados e satisfatórios à partir das premeditações e idealizações mantidas e construídas socialmente;  

"Detenhamo-nos aqui por um momento para garantir ao analista que ele conta com nossa sincera simpatia nas exigências muito rigorosas a que tem de atender no desempenho de suas atividades. Quase parece como se a análise fosse a terceira daquelas profissões ‘impossíveis’ quanto às quais de antemão se pode estar seguro de chegar a resultados insatisfatórios. As duas outras, conhecidas há muito mais tempo, são a educação e o governo." (FREUD, 2006 Vol. XXIII).

FREUD, S. 1923-1925 Além do Princípio do Prazer, Psicologia de Grupo e Outros Trabalhos. Vol. XVIII. Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.

FREUD, S. 1937 Análise Terminável e Interminável. Vol. XXIII. Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.



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sábado, 1 de abril de 2017

A PARCIALIDADE DA INDEPENDÊNCIA

No momento em que acreditamos sermos absolutamente independentes de quaisquer formas de ligações entre as atividades das quais desempenhamos ou julgamos que mantínhamos em certa predominância, abre-se uma possibilidade de reconhecimento sobre este fenômeno em questão. 
Em sociedade somos compreendidos por variados atributos e composições das quais pertencemos, porém, independentemente destas estruturas e configurações se caracterizam os contextos sobre as dependências humanas em formas generalizadas, por variáveis consequências advindas de nossas necessidades já destacadas por Freud em nosso campo psíquico por constituição, advindas por pulsões primitivas oriundas de nosso organismo constituinte.
“Se o trabalho consiste em uma atividade psicológica como o pensar, é perfeitamente legítimo, acreditava Freud, chamar essa forma de energia de energia psíquica. Segundo a doutrina de conservação da energia, ela pode ser transformada de um estado para outro, mas nunca se perde no sistema cósmico total. Disso decorre que a energia psíquica pode ser transformada em energia fisiológica e vice-versa.” (HALL, 2000).
Em concordância com esta perspectiva freudiana podemos alertar que todos nós seres humanos, somos absolutamente dependentes, dependentes da energia psíquica de si ou de externas estruturas para a mantenedora organização natural dos movimentos de vida, fora ou em enquanto membros de sociedades ou grupos.
Mesmo aquele que se intitula independente, poderá se mostrar assegurado de uma forma ou de outra, pelo auxílio e disposição que outrem movimenta em direção a si.

Assim como esta energia, que se mostra em constantes transformações, e antecede algo, neste contexto poderá surgir uma manobra e condizer uma imaginação, ou até um pensamento que posteriormente venha ser estruturado e levado a conclusão de criação de algo externo, como um objeto que poderá ser utilizado, e então manter ou contribuir para as necessidades de alguém.
A energia psíquica é um movimento que nos conduz em direção aos objetivos que inicialmente podem parecer pessoais, mais que, em certa escala de produtividade e por consequência atingiram pessoas, seja por auxílio no processo desta criatividade, ou pelo recebimento de quem consumirá essas produções em algum momento. 
Neste sentido, pela incapacidade de percepção deste contexto, digo as formas de dependência à qual todos nós humanos nos mantemo-nos vinculados, ainda que de formas impessoais, imperceptíveis ou indiretas, tendemos segmentar as partes, em um movimento de descaracterização ao todo a qual pertencemos, no sentido de entendimento, e por vezes coordenados por algo muito além de nossa própria percepção consciente, como um movimento natural de reação.

No momento em que sentimos responsáveis por aquilo que acreditamos e exercemos representações disso em direção ao mundo, vamos despertando a atenção da visão externa por estes vieses, em contribuição às novas experiências daqueles que futuramente estriam sujeitos, em um movimento real de total parcialidade.

HALL, C. Teorias da personalidade 4ª ed. Porto Alegre. Editora Artmed, 2000.



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